UMA RELAÇÃO MARCADA PELA FOBIA AO LGBTQIA+

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Para comemorar o mês do orgulho LGBTAQIA+, Márcio Valentinus (Mah Valentinus) fala da sua “transgeneridade” e quais os desafios de ser uma alma feminina num corpo biologicamente masculino, e como é relacionar-se afetivamente num dos países mais lgbtqia-fóbicos do mundo.

“As marcas da fobia estão mais presentes no meu dia-a-dia nos últimos anos e para lhes explicar como são estas marcas quero contar sobre o meu relacionamento com o modelo Vinício do Rio (Vini Rio), relacionamento que eu classifico como uma experiência marcada por altos e baixos e vários sentimentos antagônicos.

Eu conheci Vinício em maio de 2019, quando ele chegou em São Paulo vindo de Botucatu. Após um período de pura amizade – e outros acontecimentos subjacentes – assumimos compromisso no final de janeiro de 2020, estabelecendo ali uma união, com interação em núcleo familiar, que passou por picos de felicidade e tristeza.

Inicialmente, a relação foi uma situação muito nova para ambos, em todos os sentidos. Da minha parte eu havia descoberto recentemente que eu não era simplesmente gay, mas, sim, uma mulher num corpo masculino. De outro lado, tudo era novo para o Vini também e que apesar de me dar muita força e carinho ele tinha (e tem) muitos conflitos sociais e familiares. Sem falar, ainda, dos efeitos do distanciamento gerado pela pandemia do COVID-19 e as condições de saúde do Vini que faz parte do grupo de risco (Diabetes I).

Devido a esses conflitos todos, eu sempre tinha vontade de desistir da relação toda semana, mas o que me mantinha firme em buscar ser feliz com o Vini era o apoio da mãe, Eliane, que me encorajava a ter paciência, entender as limitações do filho. Ela me mandava mensagens me chamando minha nora linda; te amo; etc. (vide imagem).

A felicidade plena, mesmo com tantos “eu te amos”, “você é minha vida” e “eu quero ter um futuro ao seu lado” dividia espaço com o próprio preconceito do Vini e o seu medo em relação ao que o seu pai ou seus amigos iriam dizer desta relação.

Apesar do apoio da mãe e de um pequeno círculo de amigos que sabiam da nossa relação e chegaram a nos ver ou conviver juntos, ainda assim tinha a presença de outros fantasmas, como a insistente cobrança do Vini que eu aceitasse que ele apresentasse uma namorada para a sociedade.

Quando ele vinha com essa conversa, isso me deixava no chão. Eram constantes as brigas e discussões por conta de redes sociais, curtidas, fofocas sobre existência de namoradas escondidas, etc. Quando chegava uma informação aqui ou ali eu sempre cobrava do Vini respostas, mas ele sempre negava veemente. Inclusive, nas últimas conversas eu perguntei: Não será melhor sermos amigos.? Ele respondeu: Não!. Combinamos até viagem para o dia dos namorados.

Todavia, infelizmente, neste dia especial que podíamos estar juntos comemorando o orgulho LGBTQIA+, devido a alguns acontecimentos muito controversos que ainda estão na esfera de nossas intimidades, estamos afastados!

A primeira impressão que pode transparecer desta história é que se trata de mais um simples conto de insatisfação afetiva. Mas, não é isso!

Não seria mais fácil para mim, ou para o Vini, se a sociedade não fosse tão lgbtfóbica ou transfóbica?

Todos os relacionamentos, sejam quais forem, têm problemas, desafios, altos, baixos, alegrias e tristezas. Mas a fobia LGBTQIA+ envenena de maneira mais grave mentes e corações, destroem relacionamentos, famílias, amizades e sonhos.” Finaliza Mah.

Fotos e autoria: Márcio Valentinus Michelasi.

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