Relação complexa entre Van Gogh e Gauguin aparece de forma poética em ficção de Thelma Guedes com direção de Roberto Lage

Montagem protagonizada por Alex Morenno e Augusto Zacchi fica em cartaz até 27 de outubro na Casa de Cultura Laura Alvim

De outubro a dezembro de 1888, na pequena Arles, na França, dá-se um encontro explosivo entre aqueles que viriam a ser considerados, futuramente, como dois dos maiores artistas da história da humanidade: o holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) e o francês Paul Gauguin (1848-1903).

Após sucesso em São Paulo, o espetáculo “Van Gogh por Gauguin”, escrito por Thelma Guedes para o diretor Roberto Lage, está em temporada no Rio de Janeiro. A peça, uma ficção na qual Gauguin, em um agonizante delírio, vive sob o peso de sua responsabilidade em relação ao final de vida trágico do amigo Vincent, está em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, um espaço da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa/FUNARJ, e personifica de forma poética, simbólica e onírica os conflitos e a admiração incondicional entre os pintores.

Como não se trata de um espetáculo biográfico, mas de um encontro ficcional entre os artistas – vividos por Alex Morenno e Augusto Zacchi, respectivamente -, a direção priorizou o trabalho de interpretação para criar um universo cênico que remeta aos padrões cromáticos dos dois pintores, levando o espectador a refletir sobre o que levou essa grande amizade a um trágico fim. Tendo como apoio a pesquisa biográfica que traz à luz, sobretudo, os pensamentos artísticos divergentes de ambos, a peça privilegia questões humanas com a força de seu alcance na vida dos criadores.

Em um febril período de apenas dois meses, em que eles dividem a pequena Casa Amarela, em Arles, na isolada região rural francesa, vivendo e pintando juntos, as profundas diferenças de temperamento e de visão artística provocam embates, muitas vezes violentos, culminando no famoso e terrível desfecho no qual, após uma forte discussão, Paul decide partir de volta a Paris e Vincent reage, intempestivamente, decepando a própria orelha.

Em 1890, o atormentado Van Gogh tenta suicídio com um tiro na barriga, que o levaria à morte no dia seguinte. Gauguin, por sua vez, em 1891, depois de uma bem sucedida exposição, realiza o sonho de ir morar no Taiti. Lá, produz vigorosamente até que, abatido por uma sífilis não diagnosticada, vai sendo excluído da sociedade e abandonado pelos seus. É sobre esse episódio mal sucedido que se pauta o espetáculo Van Gogh por Gauguin. “A intenção é trazer para cena um Van Gogh espectral, fruto do inconsciente delirante de Gauguin que, sofrendo com as consequências da sífilis, acredita estar morrendo”, comenta o diretor Roberto Lage.

Por meio de um exercício dramatúrgico de imaginação, a encenação reinventa o momento em que o efeito delirante do arsênico sobre o pintor o leva a acreditar que Van Gogh está ao seu lado, acompanhando o instante de sua morte e, ao mesmo tempo, forçando-o a se lembrar dos momentos que passaram juntos. Em um ambiente decadente, deteriorado e sujo, ele sente fome e muita dor. E seus delírios colocam o público frente às diferenças entre eles, tanto no modo de ver a vida, de agir e de fazer arte, como na evidente admiração de um pelo outro – assumida por Van Gogh, mas dissimulada por Gauguin, numa mistura de inveja com incômoda admiração.

A culpa de Gauguin em relação ao amigo morto, que fora por ele magoado, abandonado e esquecido, e cuja presença e memória servem como acusação e sentença de morte, revela sua incapacidade de comunicação e afeto com aquele que tinha tanta coisa dele mesmo, mas que também seria o seu oposto, a sua sombra. Vive uma culpa sobre aquele que lhe causou, por fim, tantos sentimentos intensos, profundos e contraditórios, como o amor e a repulsa.

Van Gogh foi considerado um artista maldito, louco; um homem incompreendido pelo seu tempo. Frente a todo o tipo de infortúnio – como miséria, fome, frio e solidão – ele conseguiu deixar um legado de pinturas e desenhos não compreendidos na época em que viveu, mas aclamado após a sua morte. Os vários episódios de sua vida construíram um artista ávido por um amor que nunca foi correspondido, fosse ele a prima que não o quis, o amigo Paul Gauguin por quem tinha profunda admiração ou mesmo a fé que durante muito tempo buscou, mas acabou se rendendo à arte como forma de expressão.

Do ponto de vista realista, a encenação se passa no atelier deteriorado de Paul, nas Ilhas Marquesas. O tratamento cênico busca, pelas nuances da luz (de Kleber Montanheiro), explorando a paleta de cores dos pintores, uma estética posterior ao impressionismo de Van Gogh ou ao pós-impressionismo de Gauguin. O cenário realista (de Paula De Paoli, também figurinista) é ambientado com moldura, cavaletes e tintas; estruturas de quadros e telas aparecem em outra dimensão, sem revelar as supostas obras. Os figurinos recebem o mesmo tratamento realista, sendo o de Van Gogh um pouco mais lúdico.

A ideia desse projeto partiu do desejo de Alex Morenno, Roberto Lage e da diretora assistente Joanah Rosa em retratá-lo no palco. “Acho que Van Gogh me escolheu”, confessa o ator Alex Morenno. “Já estive muito ruivo e as pessoas me associavam a ele. Isso despertou em mim o interesse por sua vida e obra”, completa. E resolveram, então, dar corpo a esse desejo, sendo Thelma Guedes convidada para criar o texto. “Van Gogh por Gauguin é um trabalho puramente emocional. Não passa pela ‘tese’ sociopolítica que sempre defendi no palco”, revela o diretor. Já Alex conta que sempre se interessou em falar sobre loucura, solidão e inquietação artística. “Quando penso em Van Gogh, essas três coisas me vêm à cabeça, assuntos tão pertinentes em tempos tão difíceis”, ele reflete.

Augusto Zacchi conta que não conhecia muito da história de seu personagem. Para ele, a entrega de Gauguin a uma busca incondicional pela arte é o que pauta sua composição. “Meu olhar é para o humano desse indivíduo que foi buscar sua razão de vida e pagou o preço. Ambos foram forjados na vida em função da busca, da obsessão e da paixão”, comenta o ator. E Roberto Lage finaliza: “essa é só mais uma história sobre os pintores, uma defesa do ‘homoternurismo’ (termo de Mário Prata), pois creio que o preconceito social da época seja responsável pela dificuldade que eles tiveram de se relacionarem em sociedade”.

SINOPSE: Escrito por Thelma Guedes para o diretor Roberto Lage, o espetáculo Van Gogh por Gauguin, é uma ficção na qual Gauguin, num agonizante delírio, vive sob o peso de sua responsabilidade no final de vida trágico do amigo Vincent. A peça personifica de forma poética, simbólica e onírica, os conflitos e a admiração incondicional entre os pintores. Como não se trata de um espetáculo biográfico, mas de um encontro ficcional, entre os artistas vividos, respectivamente, por Alex Morenno e Augusto Zacchi, a direção priorizou o trabalho de interpretação para criar um universo cênico que remeta aos padrões cromáticos dos dois artistas, levando o espectador a refletir sobre o que levou essa grande amizade a um trágico fim. Tendo como apoio a pesquisa biográfica que traz à luz, sobretudo, os pensamentos artísticos divergentes dos dois pintores, a peça privilegia questões humanas, com a força de seu alcance na vida dos criadores.

Venda online: https://www.ingressorapido.com.br/event/32936-1/d/65857

Van Gogh por Gauguin

Temporada: até 27 de outubro

Dias e horários: Sextas e sábados às 20h e domingos às 19h

Ingressos R$ 50,00 e R$ 25,00  

Gênero: Drama.            

Duração: 75 minutos.

Classificação: 14 anos

Casa de Cultura Laura Alvim – Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa/FUNARJ.

Lotação: 186 pessoas

Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema

Tel: (21) 2332-2015.

Horário de funcionamento (bilheteria): Terça a sexta feira das 16h às 21h. Sábados das 15h às 21h e Domingos das 15h às 20h.

Ficha técnica

Texto: Thelma Guedes

Direção: Roberto Lage

Diretora Assistente: Joanah Rosa

Elenco: Alex Morenno e Augusto Zacchi

Cenografia e figurino: Paula De Paoli

Iluminação: Kleber Montanheiro

Trilha sonora: Aline Meyer

Projeto gráfico: Paula De Paoli

Fotos e vídeos: Leekyung Kim

Produção executiva: Regilson Feliciano

Operação de luz: Matheus Macedo

Operação de som: Anderson Franco

Direção de produção e administração: Maurício Inafre

Assessoria de imprensa: MercadoCom / Ribamar Filho

Realização: Roberto Lage Produções Artísticas Instagram da peça: https://www.instagram.com/vangoghporgauguin/